Feliz dia de maluquices!

Mãe que leva os filhotes para Galápagos

Mãe que leva os filhotes para Galápagos

Outro dia minha mãe foi convidada pra escrever em um blog sobre mães bem sucedidas profissionalmente. Apoiei, acrescentando que achava curioso como essa palavra era a que a definia melhor, “mãe”.

“Ainda bem”, ela falou, sorrindo. “É o que eu sempre quis ser na vida”.

Mas ela não é uma mãe padrão, aquela mãe que te obriga a levar um casaquinho, a comer canjinha quando está doente, a escolher melhor o namorado porque aquele tatuado lá, ih, é esquisito. Ok, ela fez todas essas coisas. Mas também sempre me incentivou a andar descalça na terra. A provar comidas diferentes, a escolher profissão por amor, a torrar meu dinheiro com o que me alegrar e a trabalhar mais pra ter mais dinheiro pra torrar.

Minha mãe não é uma mãe como as outras. Não trabalhamos com moderação. Bióloga de campo, sempre me ensinou que se enfiar no mato é muito legal, e que perde tempo quem não viaja a toda oportunidade. E o que se deu de mim? Virei repórter de viagem. Na minha rotina, provo muita comida estranha, pego estrada, piso no chão descalça. Ela nem pode reclamar.

Melhor do que reclamar é superar a maluquice. E comprar, de um dia pro outro, passagem pra fazer uma visitinha à filha durante uma viagem de trabalho. Só porque deu vontade, só porque nos faz feliz. Taí, o que minha mãe me ensinou de melhor: como ser feliz.

Meu eu-lírico se apaixonou

Foto meramente ilustrativa do amor do eu-lírico

Foto meramente ilustrativa do amor do eu-lírico

Os cabelos compridos voavam com o vento, e ela nem ligava. Deixava desgrenhar. A menina na rua sorria, e aquele vento parecia carinho. Quanta poesia. Meu eu-lírico se apaixonou, assim, à primeira vista.

Vocês sabem quem é o eu-lírico? Ele não tem nada a ver comigo. O eu-lírico tem vontade própria, se interessa por coisas que a Raíra, sozinha, nunca iria notar. Parece transtorno psicológico, mas não é não. Quando deixo o eu-lírico guiar o meu olhar, começo a ver beleza em tudo. E imagina quanta beleza pode ter em cabelos compridos ao vento, cobrindo o rosto, só deixando ver um sorriso. Não teve jeito, meu eu-lírico se apaixonou.

Durou dois segundos. As partes de mim que não são o eu-lírico seguiram a vida, continuaram meu caminho até o metrô. Mas o eu-lírico não seguiu, não. Queria existir, pra poder falar sobre ela. Ele só existe quando eu escrevo, entende? E ele precisava existir, pra nunca esquecer dessa sua paixão fugaz. É só isso que ele quer, a lembrança. A lembrança que é só dele.

Por isso que o eu-lírico não vai dar detalhes. Não quer descrever a cor dos cabelos, o vermelho dos lábios, o lado para qual o sorriso pendia mais e formava uma covinha. Meu eu-lírico é mais doido do que eu, quer se expressar só pra dizer que não vai entregar o ouro. E é ouro.

A menina que maltratava acordes

A menina toca melhor com botas de pelúcia

A menina toca melhor com botas de pelúcia

Ele era só um Dó maior. Mas era um Dó maior com grandes aspirações. Sonhava em fazer parte de algo majestoso, uma música repetida à exaustão, um clássico. Logo que chegou ao mundo, ele se engraçava com todo tipo de Mi. As pessoas achavam que eles iam muito bem juntos, e a menina também.

Ela não era uma pessoa má, veja bem. Era a favor desse romance, queria que eles se combinassem, e fossem o início de uma bela sequência de acordes. De mãos dadas, fofinhos, sem pausas. Queria ver até o Fá maior, seu inimigo declarado, sair livre e sonoro.

Mas ela tinha um lado oculto. O dedo mindinho entortava, a pestana perdia a força. As cordas às vezes pareciam mudar de lugar, e aquela voz tão ansiosa por cantar a música bradava um nada melódico palavrão. Ela fez de novo, partiu o coração de todos. Dos acordes e dela.

Hoje, ela dorme assim, de coração partido. Em um ventrículo só, vai. Porque o outro está preenchido com uma nova e inexplicável alegria. Há três semanas, não havia sequer encostado em um violão. Hoje, ela tem uma nova razão de viver: fazer com que o Dó e seus amigos construam uma linda história de amor. É importante ter um propósito na vida.

*
É inspirada por este novo projeto que retomo o antigo, o Delícia de Blog!. Meu primeiro filhinho ficou abandonado por um tempo, relegado à segundo plano por compromissos de trabalho. Ainda bem que o drama dos acordes me ajudou a perceber que os nossos projetos pessoais, as coisas que nos encantam e nos motivam, jamais deveriam ficar em segundo plano. Que Delícia! é voltar aqui pra compartilhar com vocês mais historinhas, descobertas, viagens e – tcham tcham – os próximos capítulos dos meus acordes. Até logo mais!

Medo de estrada

Estrada de terra é ruim, mas também pode ser bom

Estrada de terra é ruim, mas também pode ser bom

Dia desses minha mãe falou que ficava admirada que eu não sentia medo de nada. Lembro que na hora eu pensei “daonde as pessoas tiram essas coisas?”. Não dá pra entender, justo eu, que tenho medo de tanta coisa boba.

Hoje, na reta final da minha primeira viagem pelo Guia Quatro Rodas, começo a entender um pouquinho o que ela quis dizer. Pra quem não sabe, eu tirei a carta de motorista há menos de um mês. Até meados do ano passado, nunca tinha pego em um volante na vida, nem sabia o que era embreagem. E agora, pela primeira vez, dirigi sozinha. Estreei na direção a trabalho mesmo, na estrada de Campinas para Amparo. Já no meu primeiro dia, me perdi. Dirigi em estrada de terra. Peguei chuva. Não sabia onde ligava o limpador de para-brisa, ou qual o farol que eu podia usar. Senti muito medo, cheguei a chorar. Mas não foi um medo que me paralisou, que me trancou no hotel e me impediu de fazer meu trabalho.

O medo é bom, me deixa mais prudente. Me deixa mais cara de pau. To com receio, não vou conseguir estacionar? Acho alguém pra me ajudar. Mesmo que depois de demonstrar toda a minha dificuldade com o volante, eu precise me apresentar como repórter do guia com um sorrisão amarelo. Acontece, gente. Até entrar na moita com gerente de hotel do lado eu fiz. Acontece. Não morremos, tudo bem. Quebrou o gelo.

Me acostumei com o medo. Ele diminuiu, é claro, não acho mais que eu vá morrer. Mas ele está sempre aqui, e cada vez a vida me bota um novo obstáculo, uma tempestade, alguma coisa pra me testar. Aprendi até a gostar um pouco. Se eu não sinto medo, como é que vou ter a sensação de triunfo depois, por ter conseguido?

Eu sinto medo o tempo todo. Pode vir. Mato a paulada.