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Contra a ditadura das supermulheres

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Contra a ditadura das supermulheres

Começo essa semana com mais uma reflexão, dessas que a gente põe no papel (ou no teclado?) mais pra apaziguar as próprias ansiedades. E quem sabe as ansiedades de mais alguém por aqui, né? E o papo de hoje é com as mulheres. Porque quero falar sobre cobranças, prioridades e dilemas que nada têm a ver com o universo masculino. O papo é das minas.

Tenho visto cada vez mais nas redes sociais um novo tipo de cobrança sobre as mulheres. Agora que a ditadura da beleza e da magreza está fora de moda, meio que começou a ditadura das mulheres fodas. Essas que trabalham 15 horas por dia, administram empresa e maternidade, criam conteúdo e projetos nas redes sociais e tudo isso, claro, com a maquiagem impecável no final do dia. É ou não é?

Talvez isso tenha mais a ver com uma insegurança minha. Chegando aos 30, é a primeira vez na vida que não preciso administrar várias coisas ao mesmo tempo. Faculdade e estágio; trabalho e TCC; trampo fixo e freelas. Eu to só na “freelândia” há um ano e meio e preciso confessar: fico bem incomodada com o discurso “além da internet tenho um trabalho de verdade”.

Nunca na vida lidei com tantos clientes diferentes, nunca aprendi tanto e produzi tanto conteúdo criativo. Mas me vejo tendo que justificar frequentemente o fato de que não tenho um “trabalho de verdade”. E mais: me vejo tendo que desviar da acusação mais pífia dos tempos modernos na internet: não ser mais um rostinho bonito.

O que era pra ser uma ideia legal, de incentivar mulheres a investirem em outros aspectos da vida, acaba se tornando mais um mecanismo de cobrança. Ou auto-cobrança. Seria eu só “mais um rostinho bonito”? Como estou contribuindo pro mundo, pro feminismo, pra quebrar estereótipos, pra ser foda eu também? Será que sou suficiente neste panorama de supermulheres?

Sempre que houver um padrão de mulher ideal, vai haver pressão pra alcançá-lo

É aí que tá. Por mais positivo que seja essa mudança – não somos mais cobradas “só” pela beleza ou maternidade -, continua havendo um padrão de mulher desejável. A mulher foda, criativa, trabalhadora e engajada. Às vezes a gente até é essa mulher, mas ficamos tão cegas pelos nossos medos e inseguranças que nunca nos acharemos boas o suficiente. Se nunca fomos suficientes pro padrão de beleza, como ser suficiente pra um padrão muito mais sofisticado como esse?

Minha proposta aqui é: minas, relaxem. Vivam suas vidas em paz, sejam vaidosas se quiserem, sejam ambiciosas se quiserem. Mas não achem que vocês precisam ser diferentes pra ser melhores. E não achem, nunca, que outra mulher precisa ser diferente pra ser melhor. Que você precisa enaltecer seu trabalho de forma que diminua o trabalho das outras.

Afinal, ainda estamos todas no mesmo barco. Estamos todas nos arriscando aqui, tentando descobrir nosso lugar no mundo enquanto desviamos de todas as cobranças que inventaram pra gente. Em vez de engrossar o coro das cobranças, tentando parecer perfeitas, vamos dar apoio umas às outras?

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Author: Raíra Venturieri

Raíra Venturieri é jornalista, roteirista, escritora, filósofa de boteco e sim, bem tagarela. Foi repórter do Guia Quatro Rodas e tem matérias publicadas nas revistas Viagem e Turismo, Host & Travel e Viaje Mais, entre outras.

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